Diante de uma música desconhecida, talvez um incômodo possa ser uma reação, falo por experiência. Em algumas culturas, há expectativas específicas em relação à música. Diferentes comunidades ao redor do mundo a utilizam como uma forma de expressão e quando nos deparamos com o que não somos familiarizados, talvez possamos experimentar um certo “desconforto” inicial. Diversos fatores podem gerar essa estranheza como, dissonância intencional, harmonia complexa, mudanças frequentes de compasso e de tonalidade, técnicas expandidas para instrumentos (toda forma não tradicional de se utilizar o instrumento).
A apreciação musical é subjetiva. O que pode parecer estranho a uma pessoa pode ser significativo para outra.
Peguemos como exemplo alguns filósofos, cada um abordou a música de maneira diferente, refletindo preocupações e interesses: como a importância da música na educação, na formação do caráter, na emoção e na ética; como uma forma de expressar a harmonia que permeia o universo; como uma forma de expressar as forças subjacentes e inexprimíveis da realidade; como uma forma de expressar a vontade de poder e uma maneira pela qual os seres humanos poderiam transcender as limitações da existência cotidiana; como uma forma de falar do contexto da indústria cultural, argumentando que a música poderia ser tanto uma forma de alienação quanto uma expressão autêntica da experiência humana.
Já alguns compositores tiveram perspectivas diferentes. Viam a música como: um meio de expressão pessoal e emocional; acreditavam que a música deveria ser ordenada e seguir princípios matemáticos; deveria ter um propósito divino; deveria ser bela e agradável mantendo um equilíbrio entre a originalidade a aceitação do público; deveria evoluir e não ficar presa a tradições; deveria evocar atmosferas e emoções mais do que seguir estritas estruturas formais; viam na música um espaço em que se poderia acreditar que qualquer som poderia ser considerado música.
Filósofos, compositores, eu, você; em que contexto estamos? O que é estranho a quem? Conhecer o contexto cultural e histórico talvez possa ser um caminho. Aquilo que inicialmente possa parecer estranho, pode ser uma expressão única e significativa de uma tradição musical específica. As perspectivas e experiências individuais moldam a maneira como percebemos o mundo ao nosso redor, incluindo a música.
Wisnik, José Miguel, 1948- O Som e o Sentido / José Miguel Wisnik. – São
Paulo: Companhia das Letras, 1989.
Griffiths, Paul, 1947 – A Música Moderna: uma história concisa e ilustrada de
Debussy a Boulez / Paul Griffiths; tradução, Clóvis Marques; com a colaboração de
Silvio Merhy. – Rio de Janeiro; Jorge Zahar Ed., 1998.
Sacks, Oliver – Alucinações Musicais / Oliver Sacks – Relatos sobre a música e
o célebro; tradução Laura Teixeira Motta – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Schfer, R. Murray – O Ouvido Pensante / R.Murray Schfer; tradução Maria
Trench de O. Fonterrada, Magda R. Gomes da Silva, Maria Lúcia Pascoal; revisão técnica de Aguinaldo José Gonçalves. – 2 ed. – São Paulo: Ed Unesp, 2011.
