:: EDIÇÃO 18 :: Fenomenologia

O “INDO DA HISTÓRIA” E A PERCEPÇÃO DAS HIBRIDIZAÇÕES CULTURAIS E POSSIBILIDADES PERANTE AS REDES SOCIAIS E SUAS TECNOLOGIAS

Considerando todas as janelas abertas de encaminhamentos e possibilidades analíticas com a junção da noção de “cultura” e o termo inicial “hibridismo”, podemos nos confrontar com eventos e fenômenos da realidade contemporânea das novas tecnologias e espaços digitais. Aliás, “realidades contemporâneas” no plural talvez fosse mais profícuo em enunciar, ao pensarmos no movimento histórico como não uniforme e diverso nas diferentes sociedades em seus contextos. A partir dessa premissa, é possível nos arriscarmos em dizer que em cada época os contemporâneos podiam enxergar hibridismos, influências, recuperações ou até a luta por conservações de oriunda de determinadas camadas sociais.

Dizer, porém, que vivemos num “fenômeno enfaticamente novo” quanto a nossa relação entre sociedade, cultura e tecnologia faz corrermos o risco de repetirmos os imediatismos, “presentismos” ou culto ao presente que gerações e atores históricos podem cometer quando dizem do seu próprio tempo, na sua relação de olhar o passado, o presente e projetar o futuro desconhecido. Em nosso caso, por exemplo, seria mais simples apontar  e exaltar o fato de que as tecnologias que temos não são as mesmas de antes ou que as nossas são mais sofisticadas mediante às novas invenções e também novos desejos e fetiches por elas criadas em nós.

Por outro lado, uma outra forma de pensar sobre o olhar, e o próprio olhar para o movimento histórico da relação entre humanidade, suas tecnologias e culturas recentes esteja também na percepção das possibilidades criadas pelo espaço digital (redes sociais) na sua relação com a dimensão da velocidade cada vez mais recorde. Numa certa linguagem matemática em aberto, seria mais ou menos um “P = C/V”, em que “P” representa a nossa “percepção” das possibilidades criadas na interação entre os usuários das redes sociais , “C” os “conteúdos” (as possibilidades criadas pelo espaço digital) e “V” a “velocidade” cada vez mais recorde na atualização de lançamentos, dados, algoritmos e movimentos dos usuários.[1]

Buscando pensar, então, sobre alguns fenômenos que nós, contemporâneos desta época, estejamos percebendo de hibridizações e possibilidades que elas acarretam, podemos citar o universo das interações e construções e possibilidades a partir das redes sociais (o “C” de possibilidades criadas). Fruto do processo da globalização em seu encurtamento de distâncias, aumento de velocidades, impulsionamento de valores e fetiches mercantis do capitalismo, podemos pensar no espaço criado das redes sociais entre seus usuários nos seus diferentes locais, interesses, bagagens histórico-culturais, fetiches, fantasias, idiossincrasias, comunidades imaginárias, afetividades, e etc. Quantas novas variações e construções de linguagens e sentidos próprios podem ser observadas a partir do contato entre indivíduos, ideias, costumes, produtos, notícias e outras camadas de criação de subjetividades talvez não enunciadas ou conscientizadas com o uso das redes sociais? Já podemos quantificar ou dimensionar os efeitos que os algoritmos têm sobre nós ao disponibilizarem conteúdos com base em afinidades já percebidas pelos robôs digitais e a inteligência artificial?  Será que já podemos falar de uma história do uso das redes sociais, e suas comunidades e variáveis de subjetividade dos últimos anos?

Em outra forma de dizer e perguntar: o quanto conseguimos ter a percepção das possibilidades criadas (“P”) com o aumento da velocidade (V) destas variáveis e conteúdos (C – possibilidades criadas) nos territórios digitais? Olhando com as linguagens e preocupações da filosofia da história e também lentes da análise dos discursos, reflexões psicanalíticas e fenomenológicas nos colocamos aqui num emaranhado de perguntas e sensibilidades perante a uma cada vez mais intensa jornada da humanidade nesses intercruzamentos entre a realidade digital e social. Isto é, num cenário de cada vez mais criação de realidades novas e híbridas e que não sabemos ainda bem defini-los por estarmos tão imersos nela, e numa velocidade  ainda maior de abertura de campos de possibilidades e hibridizações no curso da vida.


[1] Tal expressão na fórmula indica, por exemplo, que quanto maior a velocidade de lançamentos de plataformas, dados e algoritmos, menor parece ser a percepção dessas possibilidades de uma maneira crítica, isto é, mais naturalizado os movimentos e sensações podem ser pelos agentes.

Referências Bibliográficas
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
CEBRIÁN, Juan Luis. A rede: como nossas vidas serão transformadas pelos novos meios de comunicação. Tradução de Lauro Machado Coelho. São Paulo: Summus, 1999. (Coleção novas buscas de comunicação, v. 59)
FORQUIM, Jean-Claude. Escola e Cultura: as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
HARTOG, François. Regimes de historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 14ª Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.
KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto, Ed. PUC-Rio, 2006.



Equipe Editorial
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