:: EDIÇÃO 17 :: História

OLHARES SOBRE O PODER E AS RELAÇÕES SOCIAIS

Narrar ou interpretar sobre as relações sociais ao longo da história parece ser, em muitos aspectos, tratar sobre as relações de poder. Nas diferentes abordagens, seja ela com foco nas questões econômicas, políticas estatais ou culturais, as narrativas históricas desde seus primeiros esforços na Grécia antiga1 Narrativa sobre reinos, cidades, autoridades e guerras. Como em: HERÓDOTO, História. São Paulo: Editoria Madamu, 2023 e TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso (LIVRO I), trad.: Anna Lia Amaral de Almeida Prado, São Paulo: Martins Fontes, 1999 se debruçaram sobre a questão dos domínios, focando-se num aspecto geralmente político-estatal.

É possível constatar que boa parte da história da História se concentrou na história dos grandes homens e seus reinos/Estados em suas decisões políticas, conflitos e relações.2 BARROS, José D’Assunção. Teoria da História. vol. V: A Escola dos Annales e a Nova História. Petrópolis: Editora Vozes, 2012. Graças ao marxismo, parte dos historiadores passou também a considerar a dimensão econômica, ressaltando a luta de classes e o domínio de uma sobre a(s) outra(s) nos diferentes modos de produção das sociedades na história.3 ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. O manifesto comunista. 5.ed. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1999

Em boa parte, sobretudo, a História em sua grande parte focou na história da dominação de um poder de um indivíduo ou grupo geralmente político, que (segundo a teoria marxiana e suas leituras marxistas) se confundia também com o econômico em primeira instância (na dialética base-estrutura).  No século XX, esforços historiográficos ampliaram as abordagens e personagens a serem narradas a partir da ampliação da consideração das fontes, tirando, inclusive, o foco nos grandes homens ao trazerem as massas trabalhadoras das diferentes épocas na chamada “história vista de baixo”. 4 THOMPSON, E. P. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 

As renovações teóricas no campo da sociologia e filosofia levantaram, porém, novos elementos acerca da costura das relações sociais na narrativa histórica. Não ignorando-se o Estado, mas para além dele, alguns trabalhos trouxeram outros olhares sobre as costuras sociais e o papel do poder (ou poderes) nesse processo. 

Trazendo a ideia de poder como algo que não pertence exclusivamente a um grupo ou aparato institucional, essas outras visões  (em suas inspirações e articulações conceituais) propuseram o entendimento do poder como relacional e em cadeia. Uma das propostas é a percepção da construção das legitimidades e linguagens através da formação de poderes simbólicos pelos dominantes ou campos da sociedade civil na relação com os indivíduos.5 BOURDIEU, Pierre. Sobre o poder simbólico. In: BOURDIEU, Pierre. O Poder. Simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, p.07-16 Outra é a que considera o discurso como uma das fontes emissoras do poder em cadeia e suas ramificações, nas suas diferentes linguagens como a verbal, não-verbal, disposições arquitetônicas e/ou espaciais, e por diferentes sujeitos e lugares.6  FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população. Curso dado no Collège de France (197-1978). São Paulo: Martins fontes, 2018.

As diferentes visões sobre o funcionamento do poder em outros campos das ciências humanas e sua conceituação trouxeram, também para o campo historiográfico, outras narrativas, dimensões temporais/espaciais ou abordagens a respeito das relações sociais. Por outro lado, a criação de novas perguntas e o acesso a novas fontes também puseram em cheque as generalizações que chegam ao  limite em função dos novos problemas, rupturas e informações que se obtém a partir da relação presente-passado.

Referências e notas:
[1] Narrativa sobre reinos, cidades, autoridades e guerras. Como em: HERÓDOTO, História. São Paulo: Editoria Madamu, 2023 e TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso (LIVRO I), trad.: Anna Lia Amaral de Almeida Prado, São Paulo: Martins Fontes, 1999.
[2] BARROS, José D’Assunção. Teoria da História. vol. V: A Escola dos Annales e a Nova História. Petrópolis: Editora Vozes, 2012.
[3] ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. O manifesto comunista. 5.ed. São Paulo: Ed. Paz e Terra, 1999.
[4] THOMPSON, E. P. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
[5] BOURDIEU, Pierre. Sobre o poder simbólico. In: BOURDIEU, Pierre. O Poder. Simbólico. Trad. Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001, p.07-16
[6] FOUCAULT, Michel. Segurança, território, população. Curso dado no Collège de France (197-1978). São Paulo: Martins fontes, 2018.



Hiago Fernandes
27 anos de vida e Fé Cristã. Mestrando em História Social no Programa de Pós-graduação da UERJ e graduado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É pesquisador e atua como membro do Grupo de Trabalho do JIIAR (Grupo de Pesquisa Justiças e Impérios Ibéricos de Antigo Regime-CNPq/UFF/PPGHS-UERJ) e do Laboratório de História Regional e Patrimônio (LAHIRP). Atua como coordenador técnico do Seminário Permanente Internacional Cidades e Impérios: dinâmicas locais, fluxos Globais (CIES-Iscte/UFF/Universidade do Minho).

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