A alimentação e nutrição abarcam um conceito maior do que simplesmente elucidar como é a fisiologia do alimento no corpo humano. Conforme mencionado por Freitas e colaboradores (2011), alimentação e nutrição incluem o campo semântico do comer, dieta, fome, política e outros. Nesse sentido, para refletir sobre o estudo da nutrição e suas relações sociais, é necessário considerar que nenhuma organização pode ser entendida fora do seu contexto.
Com a industrialização no início do século XVIII, a alimentação era entendida como um meio de garantir a subsistência dos trabalhadores. Posteriormente, no século XIX, a alimentação “ideal” estava relacionada ao tipo de trabalho e ao comportamento social religioso. No final deste período, a nutrição surge a partir da medicina com um modelo biomédico, associada e restrita à prevenção ou tratamento de enfermidades, mas sem considerar a experiência do sujeito. Apresentava uma visão centrada na doença, na composição química e às necessidades biológicas.
Freitas e colaboradores (2011) destacam um ponto cego que existe na formação do nutricionista, que o distancia das questões alimentares reais e do ato de se alimentar. Segundo esses autores, ainda são poucos os estudos entre alimentação e os contextos históricos, culturais e econômicos. Pensar na formação do nutricionista requer lembrar que, no Brasil a regulamentação da profissão Nutricionista ocorreu somente em 1967.
Em 1939, foram criados os cursos técnicos para a formação de nutricionistas-dietistas, somente mais de vinte anos depois, o curso foi reconhecido como de nível superior, com a duração de três anos na época (VASCONCELOS; CALADO, 2011). Os primeiros cursos de graduação em nutrição no Brasil ocorreram nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, todos de instituições públicas.
Apesar dos avanços da nutrição, o discurso biomédico, bem como suas práticas, ainda vigora sobre a saúde, “retirando” as relações sociais do contexto, como por exemplo, ao falar sobre alimentação saudável. A alimentação saudável é predominantemente pensada no contexto de calorias, um meio para atingir a perda de peso e prevenção de doenças. As relações simbólicas envolvidas na seleção do que comer e no próprio consumo alimentar são negligenciadas (MARCANTE, 2024).
FREITAS, M. D. C. S. D.; MINAYO, M. C. D. S.; FONTES, G. A. V. Sobre o campo da Alimentação e Nutrição na perspectiva das teorias compreensivas. Ciência & Saúde Coletiva, v. 16, n. 1, p. 31–38, jan. 2011. https://doi.org/10.1590/S1413-81232011000100008.
MARCANTE, G. O conceito de alimentação saudável e adequada em crítica: intersecções entre a nutrição e as ciências sociais para a politização do comer. Sociologias Plurais, v. 10, n. 2, 31 jul. 2024. DOI 10.5380/sclplr.v10i2.96302. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/sclplr/article/view/96302. Acesso em: 18 dez. 2024.
VASCONCELOS, F. de A. G. de; CALADO, C. L. de A. Profissão nutricionista: 70 anos de história no Brasil. Revista de Nutrição, v. 24, p. 605–617, ago. 2011. https://doi.org/10.1590/S1415-52732011000400009.
