:: EDIÇÃO 18 :: História

CULTURA E MOVIMENTOS CULTURAIS A PARTIR DAS HIBRIDIZAÇÕES NA HISTÓRIA: O CASO DO RENASCIMENTO NA EUROPA

Falar de “hibridização cultural” é se deparar com a abertura de janelas sobre o que se quer dizer com esse termo, além de outras perguntas como o que esse fenômeno nos diz sobre o curso da história humana. O que seria a hibridização? Seria a simples mistura de elementos? Seria a produção de um “novo” com “elementos velhos”? Seria a reunião de opostos, de iguais ou de mesclados? E a cultura? Como está sendo o significado aqui? Com quais debates e significações estamos dialogando, e de que campos ou produções discursivas? Qual sentido está se atribuindo junto com o outro termo de hibridização?

As perguntas podem nos conduzir para encaminhamentos e contextos que convocam seus sentidos e construções próprias. Falar de cultura pode, por exemplo, nos suscitar aos debates antropológicos e a historicidade do seu significado para os estudiosos dos movimentos sociais e culturais. Ou ainda, pode fazer-nos pensar sobre as próprias variações dos seus sentidos a partir dos diferentes discursos dominantes produzidos nos aparelhos de produção discursiva e de poder ao longo da história.[1]

Uma forma de discutir cultura e hibridização é a de enxergar possíveis relações com os  processos  históricos no espaço-tempo. Ao contrário da sua compreensão como uma dimensão estanque, portando uma essência de cunho naturalista – como enxergavam pensadores ainda no Iluminismo – algumas correntes antropológicas desenvolvidas durante o século XX apresentaram a ideia de que cada cultura se desenvolve de forma diferente, considerando o contexto, local onde se vive, necessidades e objetos sociais.

Tendo tais noções como fundo, é possível, por exemplo, traçar recortes espaço-temporais para análises dos contatos entre povos com culturas diferentes nas suas formas de relação, sejam elas de parcerias comerciais, trocas, assim como subjugações e violências como conquistas e colonizações. Em parceria com outras ciências humanas, trabalhos recentes do campo histórico trazem à tona importantes panoramas de “hibridizações culturais” que passavam batido, possivelmente em razão dos silêncios das fontes históricas escolhidas como oficiais, ou pelos próprios silenciamentos propositais ou não feitos pelos atores em razão de suas abordagens historiográficas,  diretrizes institucionais de sua formação, ideologias ou relações de poder.   

Um dos exemplos que podemos levantar é o movimento artístico e intelectual na Europa moderna chamado de Renascimento. Por séculos a historiografia trato-o como um movimento homogêneo de exclusividade e até de genialidade europeia, ignorando-se porém, as contribuições culturais de outros povos como os da África e Ásia para o desenvolvimento tecnológico, artístico e filosófico. É o caso das contribuições dos muçulmanos africanos e árabes chamados vulgarmente pelos ibéricos de “mouros”.

Tendo quase 700 anos de convivência com europeus na Península Ibérica, durante a Idade Média, esses agentes foram responsáveis pela disseminação de cópias, livros e obras armazenadas nas bibliotecas dos reinos muçulmanos africanos, bem como a influência linguística, de técnicas agrícolas de produção e tecnologias nesta parte sul da Europa.  A partir do contato com alguns desses povos desde a Idade Média através das cruzadas e rotas comercias, foi possível, portanto, a geração de um ambiente efervescente de técnicas, acesso às fontes literárias esquecidas, pensadores, elementos naturais que se transformariam em recursos e outros mais que culminaram no Renascimento europeu.

Enxergar tais processos, graças à ampliação das fontes, questionamentos e abordagens, não excluem o apontamento de um ambiente inovador em determinado local ou período, como no movimento cultural renascentista de algumas regiões europeias. Ao contrário,  amplia a perspectiva sobre os contatos, visualizando como as hibridizações podem ser catalisadores de tais inovações, ou até de transformações  dependendo das relações estabelecidas ao longo dos processos históricos.


[1] Como filósofos e sistemas de pensamento, instituições religiosas, cientistas e ensino, além de movimentos populares organizados ou não.

Referências:
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2019
BARROS, José Costa D’Assunção. A Escola dos Annales: considerações sobre a História do Movimento. In: História em Reflexão,  Dourados, v. 4 n. 8, 2010.
BURCKHARDT, Jacob. A Cultura do Renascimento na Itália: um ensaio. SP: Companhia das Letras, 1991
BURKE, Peter. O Renascimento italiano – cultura e sociedade na Itália. São Paulo: Nova Alexandria, 1999.
FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Tradução de Luiz Felipe Baeta Neves. 7ª ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora S.A, 1989
INGOLD, Tim. The perception of the environment. Essays on livelihood, dwelling and skill. London and New York: Routledge, 2000.
SILVA, Alberto da Costa e. A enxada e a lança: A África antes dos portugueses. Nova Fronteira, 2011.
YOUNG, Helen. De onde vem a “Idade Média Branca”?, The Public Medievalist, 2017.



Hiago Fernandes
Doutorando em História Social pelo Programa de Pós-graduação em História Social da UERJ, Mestre em História Social na UERJ (PPGHS), pós-graduado em Filosofia pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e licenciado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Mais informações:
https://modal.asaphministerios.com/equipe/hiago-fernandes/

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